Senhor Victor, o Fábio voltou a atravessar a estrada, sujeito a ser atropelado por um camião.

O aviso do vizinho chegou várias vezes a um pai que não deixava de se assustar.

Mas era impossível segurar o miúdo de quatro anos em casa quando o irmão, três anos mais velho, saía de casa para ir para o campo do outro lado da estrada jogar futebol com os amigos.

«Ele desaparecia de casa e sabíamos sempre onde ele estava. Mas o vizinho mais que uma vez veio avisar-me que via o miúdo a atravessar a estrada para ir jogar à bola com o irmão», conta Victor Carvalho ao Maisfutebol.

Foi, portanto, ali, num campo de cimento na Zona J, em Chelas, que tudo começou para o jovem jogador que brilha no Fulham e que em janeiro foi apontado aos maiores clubes de Inglaterra.

A família tinha-se mudado de Torres Vedras, para perto da família paterna, quando Fábio era um bebé de meses.

O regresso do progenitor, emigrado em França, proporcionou a mudança para Lisboa, onde a família também não se iria demorar.

Mas as bases estavam lançadas. Primeiro no tal campo cujo acesso lhe colocava a vida em perigo, depois no Olivais Sul, para onde voltou a ir atrás do irmão, e onde o Benfica lhe viria a descobrir um diamante.

Fábio Carvalho, quarto à esquerda, nos tempos do Olivais Sul

Um futebol selvagem que ninguém quis domar

Talento puro. Foi isso que Igor Santos e a sua equipa técnica nos Petizes do Benfica receberam para lapidar… sem tentar formatar.

«O Fábio chegou ao Benfica aos sete anos depois de alguém o ter visto num jogo do Olivais Sul, onde jogava na equipa do irmão, com miúdos dois ou três anos mais velhos que ele. Repararam num miúdo mais pequeno do que os outros, mas muito talentoso», recorda o técnico que trabalharia com Fábio Carvalho os três anos que ele jogou nas águias, numa equipa onde figurava, por exemplo, Paulo Bernardo.

«Era um miúdo calado e introvertido, mas o que mais recordo dele é que estava sempre muito atento ao que lhe dizíamos e aprendia tudo muito depressa. Em campo, era muito competitivo. Era um jogador rápido, com excelente capacidade de drible e atitude competitiva. Destacava-se muito no momento ofensivo», analisa o treinador que continua ligado ao Benfica, agora na escola das águias no Luxemburgo.

Fábio Carvalho (primeiro em pé, à esquerda) ao lado de Paulo Bernardo com a equipa do Benfica

Fábio cresceu numa zona historicamente marginalizada. Mas isso não esteve sequer perto de ser problema. Pelo contrário.

Quem o conhece desde a idade dos primeiros pontapés na bola, aponta esse ambiente como fator decisivo no que Fábio Carvalho se viria a tornar.

«Ele era da Zona J, de Chelas. Enquanto outros miúdos iam de férias no verão, ele passava esses três meses a jogar futebol no bairro. Provavelmente, com miúdos mais velhos, porque nesses jogos não há limites de idade. E nos três anos que o treinámos, percebíamos que ele chegava ao início da época, em setembro, com muito mais andamento do que a maioria dos colegas», sublinha Igor Santos.

Uma ideia confirmada pelo pai.

«O bairro tem miúdos muito bons, apesar do que se diz. E os miúdos certinhos só querem jogar à bola. O Fábio estava sempre lá e olhe que ele sempre se bateu bem com os garotos mais velhos», orgulha-se.

De Chelas para os campos do Benfica nos Pupilos do Exército, Fábio levava a mesma magia e irreverência. E aí entrava o trabalho de Igor Santos. Não colocar amarras num futebol em estado «selvagem».

«O futebol de rua notava-se na forma de ele jogar, na facilidade no um para um, por exemplo. Uma das nossas preocupações com os miúdos dessas idades é dar-lhes liberdade, não os impedir de apostar no individual. Só assim podem usar todas as capacidades que têm. O Fábio tinha um futebol selvagem, esse lado do futebol de rua tornava-o muito criativo», reforça o técnico.

Benfica para trás para ir em busca de uma vida melhor

Em 2013, Portugal atravessava uma crise financeira que obrigou o país a ser intervencionado pelo Fundo Mundial Internacional.

A família Carvalho foi uma das que deixou o país no êxodo desses anos.

Depois de anos a trabalhar em canalizações em França, Victor Carvalho olhou para Inglaterra, onde também já tinha trabalhado, como o país onde podia dar um futuro à mulher e aos três filhos.

«Eu sabia que em Londres não teria dificuldades em encontrar trabalho na área das limpezas, onde já tinha trabalhado. Fui eu primeiro e três meses depois consegui mandar vir o resto da família», recorda.

Para Fábio, ficavam para trás os amigos, o campo em Chelas e o Benfica. Mas o pai garante que o filho não viajou com qualquer mágoa. Até porque havia alguma desilusão com as águias.

«Quando ele foi para o Benfica, aquilo que pedimos foi que assegurassem os transportes para ele. Porque escola ele tinha, e isso também era importante. Os senhores Miguel Soares e Fonte Santa, a quem só tenho a agradecer trataram de tudo e durante três anos ele teve o transporte. Mas depois alguém acabou com isso», lamenta.

«Comigo em Inglaterra, a mãe explicou-lhe que era muito difícil ele continuar a jogar no Benfica, porque ela não conseguia levá-lo aos treinos e aos jogos e o clube já não lhe garantia o transporte. Por isso, não lhe custou tanto a ida para Inglaterra», contextualiza.

Hoje, Victor Carvalho não tem dúvidas: «Vir para Inglaterra foi a melhor decisão que tomei na vida para garantir o futuro dos meus filhos».

Para as três crianças, de 13, dez e sete anos, a adaptação foi fácil. A tal ponto que foram os filhos que fizeram força para permanecer em solo britânico quando a família ponderou um regresso, cerca de três anos mais tarde.

Fábio com o irmão mais velho, já em Inglaterra

Disputado por ‘todos os clubes à face da terra’ optou… pelo Fulham

Chegados a Londres, Fábio Carvalho começou por jogar futebol apenas na escola. Mas um professor alertou a família da mais-valia que seria tê-lo a jogar num clube.

«Ainda fui com ele fazer um jogo-treino no Fulham, mas não me agradou. Pareceu-me uma coisa sem jeito e além disso não ligaram nenhuma ao miúdo. Por isso, continuou a jogar só na escola».

Mas o professor insistiu.

«Fui chamado à escola e expliquei que tinha ido fazer o treino, mas que não tínhamos gostado e foi ele que sugeriu que fossemos ao Balham FC.»

E naquele pequeno clube, tudo mudou. Fábio e a família ficaram convencidos. E os responsáveis do clube ficaram deliciados.

Fábio (primeiro à esquerda em baixo) com os colegas do Balham

«O Fábio tinha 10 anos e apareceu num treino dos nossos sub-11. Explicaram que se tinham mudado para Londres há pouco tempo e que procuravam um clube para ele jogar», recordou recentemente Greg Cruttwell, presidente do Balham FC, em declarações à Sky Sports.

E num instante, os olhos dos treinadores começaram a brilhar com o diamante que tinham diante deles.

«Após 30 segundos de treino, atirámos-lhe uma bola a 25 metros e ele devolveu-a com toda a facilidade. Olhei para o meu colega e nem foi preciso dizer nada».

«Fez um treino incrível. Tinha postura, equilíbrio, qualidade técnica e até um toque de arrogância boa. Convidámo-lo para voltar, inscrevemo-lo e ele começu a brilhar» sublinha Cruttwell.

Convencidos os treinadores, também os colegas rapidamente se renderam ao português.

«Encaixou de forma perfeita na equipa. E apesar de ser claramente melhor do que os colegas, nunca colocou em bicos dos pés com os colegas, que o adoravam. Apesar de mostrar ambição, era um miúdo humilde e tinha o fator X em termos de personalidade», elogia o mesmo responsável, dando um exemplo.

«Apesar de já estar a caminho do estrelato no Fulham, de vez em quando ainda vem aqui ao nosso estádio ver os jogos do Balham. É mesmo um miúdo incrível», enaltece.

Ora, depois de três épocas, o Balham começou a tornar-se demasiado pequeno para o talento de Fábio Carvalho.

O nome do português começava a aparecer inscrito nos apontamentos dos maiores clubes ingleses e foi impossível reter o diamante, conforme relata Crutweel.

«Tornou-se um circo. Todos os clubes à face da terra queriam contratá-lo, ele podia ir para onde quisesse», assegura o responsável do Balham.

Victor Carvalho dá mais detalhes.

«Só com o Chelsea, tivemos nove encontros. Fomos ao centro de treinos várias vezes. Mas reunimos também com o Arsenal, o Manchester United, o Liverpool… até que apareceu o Fulham», refere o pai do jogador.

Para quem acompanha futebol, a declaração pode não fazer muito sentido. Com os maiores clubes de Inglaterra interessados, porquê optar por um clube de menor dimensão.

Mas para a família Carvalho, o futebol não era tudo.

«O Chelsea disse-nos que não conseguia garantir escola e transporte para o Fábio. E o Fulham mostrou logo disponibilidade para assegurar. Acima de tudo, não procurávamos apenas o lado desportivo e o Fulham ofereceu as melhores condições nesse aspeto e ainda pagava 300 libras por mês ao miúdo», detalha.

Fábio Carvalho e o pai (à esquerda) no dia em que assinou pelo Fulham

Meia Inglaterra de olho, Klopp a suspirar… e o sonho da seleção portuguesa

No Fulham, o talento de Fábio Carvalho desenvolveu-se. O médio ofensivo cresceu como jogador e nunca saiu dos radares dos maiores clubes ingleses… nem da seleção.

Apesar de ter chegado a treinar com as seleções jovens de Portugal, o jogador do clube que lidera o Championship, apenas representou a seleção inglesa.

Fê-lo nos escalões dos sub-15 aos sub-18, mas o pai garante que é por Portugal que Fábio Carvalho ambiciona jogar, ainda que lamente uma aparente «falta de interesse».

«O Fábio é filho de pai angolano e mãe madeirense. Nasceu em Portugal e é português. Neste momento nem tem passaporte inglês. Ele quer a seleção portuguesa, esse sempre foi o sonho dele. Já fomos algumas vezes à Cidade do Futebol, mas eles não mostram assim muito interesse», lamenta.

Alheio a essas questões, Fábio Carvalho continua apenas focado em fazer aquilo que sempre adorou: jogar futebol.

Depois de se ter estreado na Premier League na época passada, ainda com 18 anos, sob o comando de Scott Parker – marcou um golo em quatro jogos – o médio ofensivo tem sido um dos jogadores em maior destaque no Fulham de Marco Silva.

E Victor Carvalho elogia bastante o que o treinador português tem feito pelo filho, que leva nove golos e quatro assistências em 21 jogos.

«Quando o Marco Silva chegou, o Fábio já tinha recusado assinar um novo contrato com o Fulham [o vínculo termina em junho]. Quando é assim, existe sempre pressão para colocar os jogadores de lado, mas o Marco não deixou», revela.

«Ele falou com o meu filho e disse-lhe que no que dependesse dele, o Fábio ia jogar porque era importante para a equipa. Honestamente, além de estar a fazer um bom trabalho, o Marco Silva tem sido um bom conselheiro», enaltece.

Aliado à qualidade inegável, o facto de se ir tornar um jogador livre a partir de 31 de janeiro, fez com que o nome de Fábio Carvalho se tenha tornado num dos mais repetidos em Inglaterra durante o mercado de inverno.

E dos vários clubes aos quais foi apontado – de Inglaterra, mas também de Espanha e da Alemanha -, o Liverpool foi aquele que mais interesse demonstrou. Ao ponto de Klopp ter suspirado pela contratação do português… que caiu à última hora.

«Obviamente ainda estamos interessados no Fábio Carvalho. Seria uma loucura se não estivéssemos. Agora, não está nas nossas mãos. O processo atrasou-se e não deu certo antes do fecho do mercado. Veremos o que acontece», declarou após o período de transferências ter encerrado.

Victor Carvalho admite que a transferência esteve muito perto de se concretizar. Muito perto mesmo. Mas isso não faz com que o Liverpool seja o destino certo para o filho.

«Ele chegou a fazer exames médicos, mas depois o processo não avançou. Continua a haver interesse e propostas para ele de vários clubes ingleses e da Alemanha. Mas a decisão vai ser só dele», garante.

Pelo meio, e mesmo com todos os rumores associados a ele, Fábio Carvalho não deixou de render em campo. Pelo contrário.

Ao longo de janeiro, o médio ofensivo marcou quatro golos e fez duas assistências. E já em fevereiro, continua a provar que a cabeça continua apenas no futebol. Marcou ao Manchester City na Taça de Inglaterra e fez mais uma assistência no campeonato.

E isso não surpreende quem o conhece. No fundo, Fábio Carvalho continua a ser aquele miúdo que só quer jogar futebol.

Só que antes ignorava camiões. E agora ignora ‘tubarões’.

Fábio Carvalho com os pais e os irmãos