Nessa origem, três iniciais (FLN) cruzam-se com uma geração de talentosos futebolistas franco-argelinos. E com a opção que estes tomaram, quando se preparavam para atingir o ponto mais alto da carreira, no futebol francês. O expoente máximo dessa geração chama-se Rachid Mekhloufi, e no seu percurso está contida parte importante da história de um país, a Argélia.

Nascido no que era então uma província francesa, Mekhloufi passa os primeiros anos de vida em Sétif. É aí que, em maio de 1945, nas comemorações pelo final da II Guerra Mundial, testemunha um massacre que prenuncia a longa guerra franco-argelina: um disparo policial provoca a morte de um estudante argelino e desencadeia confrontos generalizados entre colonizadores e colonizados. Há milhares de vítimas e o clima de desconfiança e hostilidade não voltará a desaparecer. Mas a vida do jovem Mekhloufi, um futebolista brilhante no clube local, prossegue com a normalidade possível até ao verão de 1954.

Aí, com 18 anos, é visto em ação por um olheiro do Saint-Étienne, que recomenda sem reservas a sua contratação ao técnico Jean Snella. Mekhloufi faz a viagem para a metrópole e basta-lhe uma sessão de hora e meia para convencer o treinador de que se trata de um predestinado – apesar de nunca antes ter jogado em relva. Em novembro desse mesmo ano, começa a guerra pela independência, que durante algum tempo, não muito, vai passar ao lado do jovem aprendiz de craque.

Em ação pelo St. Etienne

Na estreia como profissional, assume-se de imediato como patrão no ataque e marca três golos. Começa aí uma longa história de amor com os «verts», que em 1956/57 conquistam o seu primeiro título de campeões, graças a uma dupla made in Africa: Mekhloufi, argelino, e N'Jo Lea, camaronês, marcam 54 dos 88 golos conseguidos pela equipa nessa temporada.

Com apenas 20 anos, Mekhloufi chega à seleção francesa. É uma das maiores esperanças futebolísticas do país, e a referência para os jovens argelinos, a par de Mustapha Zitouni, defesa do Cannes e do Mónaco, mais velho, que vai desempenhar um papel decisivo nesta história.

Em abril de 1958, Zitouni e Mekhloufi estão entre os 40 pré-convocados pelo selecionador Paul Nicolas, com vista ao Mundial da Suécia, que vai começar em junho. Poucos duvidam da sua inclusão na lista final. Mas a 13 de abril, um take da France-Press muda os dados da questão: «Cinco jogadores muçulmanos de origem argelina deixaram a França clandestinamente e dirigiram-se a Tunis, via Roma, sendo recebidos por dirigentes da FLN»

Imagem comemorativa dos 50 anos da equipa da FLN

É a FLN, Frente de Libertação Nacional argelina (FNL), quem lança, dois dias depois, um comunicado político cujas implicações abalam o universo do futebol: Zitouni, Bentifour, Boubeker, Bekhloufi e Rouai são os primeiros cinco profissionais que decidem abdicar da carreira em França e juntar-se a uma equipa em formação, a equipa de futebol da FNL. Antecipando gestos idênticos de outros jogadores de primeiro plano, a organização termina o comunicado anunciando a vontade de criar uma federação de futebol argelina, e de pedir adesão à FIFA, de forma a poder participar nas competições internacionais.

Dois dias depois, mais cinco estrelas da Liga francesa desembarcam em Tunis, tornando a cisão irreversível: Mekhloufi é o cabeça de cartaz, acompanhado por mais quatro nomes com impacto – Brahimi, Bouchouk, Kermali e Arribi. Um 11º jogador, Hassen Chabri (Mónaco) é intercetado pelas autoridades francesas na fronteira com a Itália, quando se preparava para imitar os companheiros.

Apesar desse pequeno revés, do ponto de vista político, o impacto desta ação é enorme. No plano futebolístico também. Com as baixas de última hora, as contas francesas para o Mundial da Suécia são modificadas, bem como o equilíbrio de forças na Liga: sem o talento de Mekhloufi, o homem que trocou um Mundial por um país, passam-se seis anos até o Saint-Étienne voltar a ser campeão.

Pelo meio, os jogadores assumem a dupla condição de atletas e ativistas: desdobram-se em entrevistas onde resumem os objetivos da FLN aos jornalistas europeus que os procuram. As autoridades argelinas aprestam-se a organizar uma digressão pelos países árabes, simpatizantes da causa, de forma a manter o estatuto competitivo dos seus atletas de elite – e, ao mesmo tempo, a habituar o mundo à ideia de uma seleção argelina «oficiosa».

Mekhloufi, em baixo, ao centro, como capitão argelino

A 3 de maio desse ano, apenas duas semanas depois da espectacular saída de França, os futebolistas argelinos juntam 8 mil espectadores que os vêem golear a Tunísia por 5-1. Quatro dias depois a FIFA proíbe todos os seus filiados de contratar os jogadores rebeldes e defrontar equipas que os incluam, o que não invalida o sucesso de um quadrangular oficioso, entre as equipas da Tunísia, Líbia, Argélia e Marrocos, ganho pelos homens da FLN, com Mekhloufi como chefe de orquestra.

As origens do futebol argelino

Vitória e regresso

Na Argélia, a Guerra pela independência dura mais quatro anos. Quatro anos de propaganda futebolística semiclandestina para os homens da FLN, e de intensas batalhas diplomáticas que pretendem o reconhecimento da FIFA. Marrocos e Tunísia ganham estatuto de pleno direito em agosto de 1960, Mekhloufi e os seus companheiros – que por essa altura já são 32 - sentem que é apenas uma questão de tempo até as autoridades políticas e desportivas se renderem à evidência de que a Argélia está num ponto sem regresso.

Além dos africanos e árabes, também a Europa de Leste - URSS, Bulgária, Hungria, Checoslováquia, Polónia e Jugoslávia abre as portas à equipa da FLN. Entre maio de 58 e dezembro de 1961, Mekhloufi e companhia participam em 83 jogos, em países simpatizantes com a causa. Ganham 57, perdem apenas 12 e dão um lado espectacular à ação política, marcando mais de 300 golos.

Postal comemorativo dos 50 anos

Em março de 1962, finalmente, a França reconhece a independência à Argélia. Em junho, Ben Bella, o chefe político da FLN, reúne os 32 jogadores e agradece-lhes a participação na luta. «Nunca serão esquecidos», promete, ao mesmo tempo que declara a extinção da mais famosa das equipas clandestinas.

Idolatrado pelos adeptos do Saint-Étienne, respeitado por todo o futebol francês, por uma imagem, nunca beliscada, que conciliava talento e desportivismo, Mekhloufi decide-se por um passo arriscado, num tempo em que os rancores da guerra ainda estavam bem vivos: decide-se por voltar ao clube e à Liga que o projetou.

O melhor goleador da história do Saint Étienne

Para contornar os regulamentos, faz uma curta passagem pela Suíça (contribuindo para o título de campeão do Servette de Genève) antes de voltar ao estádio Geoffroy-Guichard. Em dezembro de 1962, os quatro anos de separação tornam-se em nada: o público aplaude-o como se ainda ontem tivesse vestido a camisola verde. Basta um ano para que o casamento seja abenoçado com novo título de campeão, o segundo na história do clube.

Até 1968, quando troca os verdes pelo azul do Bastia, Mekhloufi ganha mais dois títulos de campeão, fixa o recorde de golos no clube (192) e continua a reforçar o estatuto de ídolo na Argélia, jogando dez vezes por uma seleção finalmente reconhecida pela FIFA e todos os seus filiados.

Mekhloufi, à esquerda, após a vitória sobre a Alemanha, em 1982

Em 1969, com 33 anos, encerra a carreira de jogador e torna-se, por unanimidade, selecionador nacional. Um cargo a que voltará em 1982, na estreia da Argélia em Mundiais – é ele quem está no banco, em Gijón, quando Madjer, Belloumi e companhia surpreendem o planeta, batendo a Alemanha por 2-1. Não seria preciso tanto para o transformar numa lenda viva para os argelinos. Mas quando alguém festejar o calcanhar de Madjer, os golos de Slimani ou os dribles de Brahimi, talvez faça bem em lembrar-se por instantes de um dos homens que mais ajudou a abrir-lhes caminho.

Mekhloufi, um dos cinco «Rebeldes do Futebol» retratados em documentário com Cantona

Soldados desconhecidos é uma rubrica dedicada a figuras pouco conhecidas da história do futebol, com percursos de vida invulgares