«Os alemães até lamberam relva», escreveu o Comércio do Porto no dia seguinte à final de Viena. 33 anos depois, o Maisfutebol recordou o jogo histórico que consagrou o FC Porto como campeão europeu após vencer o Bayern Munique (2-1) e recuperou memórias dos heróis portistas.

Paulo Futre, que entrou ao intervalo nos comentários no nosso jornal é o guia, ainda que conte com ajuda de alguns ex-companheiros.




A tropa assombrava os sonhos de Paulo Futre, que podia não ter jogado a final. Antes da partida das meias-finais, frente ao Dínamo de Kiev, soube que apenas teria de se apresentar para cumprir o serviço militar obrigatório em setembro e... deu dois beijos ao presidente Jorge Nuno Pinto da Costa.

«Livrei-me da tropa a primeira vez quando passámos a final. Tinha de ir para Castelo Branco dia 1 de maio e a final era dia 27. Na véspera do jogo nas Antas contra o Dínamo de Kiev, o Pinto da Costa veio ter comigo e disse: 'Paulinho, tive uma reunião com o Ministro da Defesa e se formos à final, passas para o segundo turno'. Dei-lhe dois beijinhos e disse que íamos à final. Em Kiev, a malta estava a chorar de felicidade e eu só dizia: 'não vou à tropa!'», contou, ao Maisfutebol.

No entanto, foi a partida frente aos alemães, precisamente a que lhe permitiu adiar o cumprimento do serviço militar obrigatório, que lhe tirou o sono. 

«Na véspera do jogo não conseguia dormir. Como estava de barriga para baixo na cama do hotel, sentia o colchão a mover-se pelo facto de o meu coração estar a bater tão rápido. Acordei às 9h da e comecei aos saltos em cima da cama. Tinha chegado o grande dia. Tive de tomar um comprimido para dormir, já por volta da uma da manhã», explicou.

A missão dos homens de Artur Jorge era complicadíssima. Além do estádio estar maioritariamente ocupado por alemães, o conjunto da Baviera metia medo pelo currículo que apresentava (três Taças dos Campeões Europeus seguidas entre 1973 e 1976), mas também pela impressionante estampa física.

«Logo no princípio, quando estamos formados onze lado a lado para entrar no campo, nós na brincadeira com aqueles «bichos» tão grandes dizíamos: ‘Acho que 4-0 é um bom resultado para nós.’ Mas isso era uma brincadeira, depois lá dentro era diferente», disse Jaime Magalhães, numa reportagem feita pelo Maisfutebol em 2017, três décadas depois da final.

Jaime Magalhães nem era muito alto: 173 cm. No entanto, achou por bem cabecear para afastar um lançamento lateral do conjunto bávaro. Não correu bem, claro como o próprio rememora.

«Na primeira parte, eles não criaram grandes oportunidades, tirando aquele golo que foi um bocadinho fortuito: um pequeno toque na minha cabeça em que toda a gente ficou fora do lance e o Jozef (Mlynarczyk) também não estava muito bem situado na baliza», lamentou o antigo médio.


Todavia, a noite seria dos baixinhos Futre, Frasco, Madjer e Juary. Abaixo os alemães! «Lamberam relva», lembra-se?

Mas antes, houve «a» palestra de Artur Jorge. Fora com o casaco e com a gravata – que até pareciam atrapalhar -, mangas arregaçadas e um discurso que mudou o curso da história – o Bayern vencia ao intervalo. O ex-jogador e comentador do nosso jornal esta noite, e já agora maior contador de histórias desse plantel, relatou como tudo aconteceu.

«O Artur Jorge teve uma coragem tremenda. O Juary entrava quase sempre a vinte minutos do final. Foi a maior palestra que me deram na minha vida como futebolista. Com a entrada do Juary para o lugar do Quim, um médio, ficámos com uma referência. O Bayern estava a ser um pouco superior, mas não teve grandes oportunidades. Precisávamos de um empurrão. O Artur Jorge foi um génio, teve três ou quatro minutos para pensar no que ia dizer. O que ele pensou naquele momento foi incrível!Foi o empurrão que fez com que fôssemos lá para dentro e entrássemos na história. Não tínhamos outra hipótese! Na parte final da palestra disse ‘para verem o que estou a dizer, vai entrar o Juary’», relatou o esquerdino.

André, que estava no mesmo balneário que Futre, preferiu destacar outra passagem do discurso do técnico naqueles minutinhos entre a primeira e a segunda parte.

«Alguns jogadores pareciam esquecidos de tudo o que havíamos passado para ali chegar. No balneário, o Artur Jorge disse: ‘Que idade vocês têm? Vocês já não têm mais hipóteses de estar numa final. E vão deixar fugir isto? Têm os vossos familiares a ver, a família portista a ver e vocês vão deixar fugir?’ Quando ia para o túnel, que era muito comprido, eu engoli em seco e disse aos meus colegas: ‘Nós vamos ganhar isto’!», referiu ao nosso jornal, em 2017

Antes de Majder e Juary roubarem o palco, Paulo Futre a si todo o protagonismo. O prodígio português fez uma das jogadas mais incríveis da carreira e ficou pertíssimo do golo. Paulo, ficou na memória de todos mesmo que não tenha entrado. Não é, por isso, preciso adulterar o final (Ahahah).


«Essa jogada é considerada, penso eu, a melhor jogada numa final da Champions que não deu em golo. Em 2011, disse uma frase que foi dita pelo meu pai: foi uma jogada de génio com definição de distrital. Até 2011, os meus companheiros não repararam que eu ia rematar. A bola bateu-me muito atrás [do pé]. Queria dar com a parte interior para dar efeito, a bola bateu-me no calcanhar e saiu muito direta. E pareceu assistência para o Madjer. Ele não chega por um palmo. Foi a definição de um jogador da distrital como disse o meu querido pai.»


Já vamos chegar aos golos, caro leitor. Está quase, mas primeiro temos de falar de António Frasco, caso contrário ele jamais nos perdoaria. Em 2017, o médio partilhou o que o treinador lhe pediu antes de o lançar aos 65 minutos.

«O Artur Jorge chamou-me, pôs-me a mão nos ombros e disse-me: ‘Vais ali para o lado direito, vais tentar penetrar no um contra um, tentar depois cruzar ou fazer um passe. Tentar criar superioridade na área do Bayern.’ E isso veio a acontecer. Peguei na bola, fui para cima do adversário, ultrapassei-o e por milésimos de segundo, porque o defesa do Bayern quase cortava a bola, consegui passar. O Juary remata para a baliza, a bola sobra e o Madjer faz um golo fantástico que vai ficar sempre para a história do nosso clube e do futebol mundial. Na altura pensei logo: ’Se este sacana falha, vamos cair-lhe em cima!’».

Porra, o Artur Jorge parecia que tinha uma bola de cristal. Se fosse hoje, usaríamos um anglicismo qualquer como «Special One» ou «Normal One» para nos referirmos a ele. Em bom português, vamos ficar com «Rei Artur».

Frasco insultou mentalmente o argelino e André previu o desfecho (atenção, Artur Jorge continua a ser o homem da bola de cristal). Mais de três décadas depois, Futre lembrou o lance. 


«O Madjer era mágico, estava sempre a inventar coisas. Foi o jogador mais completo com quem já joguei e joguei com o Maradona na seleção do mundo! Era um génio. Era capaz de tudo como foi. Para qualquer da história era mais fácil dar a volta, girar e empurrar. Mas estás a falar do Madjer! Só ele podia fazer aquela grande, enorme e histórica obra de arte», defendeu.

 


1-1.

Agora voltamos a passar a palavra a Paulo Futre: «O Madjer meteu-lhe um cabide nas costas». É um contador de histórias nato. Ups! Já tínhamos dito.

«O lance do Madjer… Sempre disse aos meus filhos quando eles eram adolescentes. Quando o Madjer vai para cima do defesa (Winklhofer) e sai para fora, vê os rins do defesa. O Madjer meteu-lhe um cabide nas costas. Nunca mais ouvi falar deste defesa. Partiu-lhe mesmo os rins… levou o maior nó que eu vi e ficou de pé! Aqueles rins partiram-se todos e ele nem caiu. Foi incrível! Rebentou-lhe os rins e ele nunca mais jogou.»


Reviravolta dos dragões com dois golos em dois minutos. O 2-1 não matou o Bayern. Com os alemães nunca se sabe, não é? Jogam até ao último apito e tem uma mentalidade brutal.  Faltava o FC Porto segurar a vantagem e aguentar a reação do favorito, na iminência de perder a final.

«O Bayern a partir do momento em que se encontrou a perder começou a jogar direto no Hoeness, que é enorme. Estávamos tranquilos. Dos jogos que fiz pelo FC Porto foi dos que estive mais calmo. Mas o que queria fazer era sempre por a bola mais longe da área. Há alturas em que bato mesmo à defesa; para longe, apenas, sem preocupação de dar a um colega», referiu Eduardo Luís.

Mais de um 190 cm? Venha ele. Nem a altura de Dieter Hoeness (irmão de Uli Hoeness) não meteu medo ao FC Porto. Muito menos os seus cotovelos. Ou então André não tinha amor aos dentes como se diz por aí.

«Quando o mister tirou o Inácio, passou o Eduardo Luís para lateral esquerdo e eu para central com o Celso. Eles tinham o Hoeness, de 1,92 metros e eu disse logo: ‘Celso, tu marcas este alto, meu...’. Mas ele: ‘Não André, eu estava a marcar o outro, já conheço o outro, marca tu esse.’ e eu fiquei: ‘Como é que me vou desenrascar com este gajo… Eu olhava para ele [faz o gesto de olhar para cima] e ele só me mostrava o cotovelo. Eu agarrava-o, encostava-me a ele, tentava de tudo. Olhava para o relógio e... Dez minutos para acabar. ‘Oh minha mãe. Como é que me vou safar disto?’. E ele só me mostrava o cotovelo, como que a dizer-me que me ia rebentar. Mas disse-lhe: ‘Não me importo de ficar sem dentes, quero é ganhar! Quero lá saber que me dês. Vais expulso e sem ti ainda temos mais facilidade em ganhar’ [risos]», contou António André.

Depois da arte, o sacrifício, até o apito final do árbitro belga Alexis Ponnet ecoar no Prater. João Pinto agarrou-se à Taça - era como um brinquedo novo que tinha acabado de receber e não mais a largou. Se pudesse, talvez ainda hoje continuasse a segurá-la.

«Lembro-me de beijar a Taça e fomos a correr para o lado onde estavam os adeptos. Eu não dei a Taça a ninguém e mesmo quando queriam tirar fotografias com a Taça, eu dava-lhes uma asa e ficava a segurar na outra. Quando acabava seguia outra vez com ela. Até ao presidente fiz isso», sublinhou o antigo capitão na reportagem feita há três anos.

Face à pandemia de Covid-19, Futre confessou que a «rapaziada tem mais tempo» e que a ligação de João Pinto com a Orelhuda ainda é recordada.

«Com o pesadelo que estamos a viver, a rapaziada está com mais tempo e mandaram-me foto com a Taça. É o corpo do João Pinto com a minha cara. O João Pinto fez aquilo e eu podia ter ficado todo nu! Não está escrito o que devemos fazer. Alcançaste a glória. Ao João deu-lhe para aquilo, podia-me ter dado para ficar todo nu. O João está perdoado e muitas vezes lá vejo a minha felicidade», revelou.

22 homens disputam uma bola durante 90 minutos e, no final, os alemães ganham sempre? Lineker, esquece lá isso. O João Pinto é que sabe.

«No final? Os alemães deram os parabéns. Se calhar com a cabeça mais para baixo do que o normal. Estavam convencidíssimos que iam ganhar…», concluiu o capitão.
 


Pode ler toda a reportagem do Maisfutebol sobre os 30 anos de Viena:

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