Falar de um Toni marcante para o futebol austríaco é, para os nostálgicos com mais de 30 anos, pretexto automático para recordar Toni Polster - o matador de Viena, que passeou a sua permanente amestrada pelos relvados de Espanha, Itália e Alemanha, e marcou 44 vezes pela seleção, entre 1982 e 1999.

Toni Polster em final de carreira: a permanente já não era a mesma

Mas uns 30 anos antes de Polster acumular golos por essa Europa fora, já outro Toni austríaco tinha sido projetado para a fama – mais episódica, é certo - graças a uma noite de magia em Wembley. Chamava-se Toni Fritsch e o seu maior legado para a história do desporto é ter sido, muito provavelmente, o homem que melhor uniu, a pontapé, duas modalidades separadas por um Atlântico de incompreensão: o «nosso» futebol, e o futebol americano.

Não nos adiantemos, é melhor começar a história deste Soldado Desconhecido por onde faz sentido: a Áustria dos últimos dias da II Grande Guerra, mais precisamente a localidade de Petronell-Carnuntum, 40 quilómetros a leste de Viena, onde a 10 de julho de 1945 nasce Anton Fritsch, Toni para os amigos.

É num país que sofre para superar os efeitos da guerra e do Anschluss que o jovem Toni passa a infância, tendo no futebol de rua a primeira grande paixão. Pequeno, mas rápido e robusto, é encorajado a tentar a sua sorte num dos grandes de Viena. Aos 13 anos entra nas escolas do Rapid, onde aprende as subtilezas táticas que a rua não lhe ensina.

Passam-se cinco anos até à estreia na equipa principal, como extremo direito. A tempo de, com apenas 18 anos, e graças à participação em dois jogos da Liga, levar para casa a medalha de campeão de 1964. É a primeira das três que vai conquistar até 1968, e às quais juntará duas Taças da Áustria. Na época seguinte marca o primeiro golo como profissional, e dá nas vistas, a ponto de o selecionador, Eduard Früwirth, o incluir numa convocatória que, uma vez perdido o apuramento para o Mundial 1966, procura o sangue novo e talentoso capaz de devolver a Áustria a uma posição de destaque no panorama europeu.

Fritsch marca o seu primeiro golo à Inglaterra

Assim, a 20 de outubro de 1965, Fritsch é um dos quatro estreantes de uma seleção austríaca que mede forças com uma Inglaterra de olhos postos no «seu» Mundial. O selecionador inglês Alf Ramsey faz algumas experiências, tira Banks da baliza, e vê os seus jogadores falharem um bom punhado de golos. Ainda assim, a Inglaterra adianta-se por duas vezes, com golos de Charlton e Connelly. Mas, nos últimos 20 minutos, já com a segunda parte bem lançada, dá-se o golpe de teatro que o filme da British Pathé documenta:

Primeiro numa recarga oportuna, depois num potente e preciso remate de fora da área – fixem estes adjectivos, são importantes para o resto da história – Fritsch, o estreante, bisa em apenas sete minutos. Nasce a lenda de Wembley-Toni, o jovem que fez da Áustria apenas a terceira seleção continental – depois da Hungria e da Suécia - a derrotar (3-2) a Inglaterra no seu palco fetiche.

A segunda etapa

A vida nem sempre é tão linear como nos filmes: nunca mais Fritsch voltou a ser feliz, nem a cruzar-se com o golo, nos oito jogos que voltou a fazer pela Áustria. Os troféus conquistados no Rapid sustentam-lhe a carreira, mas é já seguro, aos 23/24 anos, que o jovem Toni, profissional competente, não será uma estrela de primeira grandeza.

Fritsch, em cima`, à esquerda, festejando a Taça de 1968 

É talvez essa convicção que o leva a estar recetivo a uma estranha proposta, que lhe chega através de um intermediário, na primavera de 1971: em viagem pela Europa, um inovador técnico de futebol americano, chamado Tom Landry, tinha ficado impressionado com a precisão do seu pontapé. Landry, treinador vanguardista e visionário, estava convicto de que as equipas do futebol americano, e em especial os Dallas Cowboys, onde trabalhava desde 1960, precisavam de mais especialistas em pontapés de penalidade. Landry estava disposto a fazer a ligação com o futebol europeu, usando Fritsch como cobaia – e oferecia-lhe muito mais do que alguma vez poderia ganhar no futebol austríaco.

Com um inglês rudimentar, que o impediu de perceber metade do que estava a acontecer, Fritsch assinou o contrato, desvinculou-se do Rapid, e passou o verão de 1971 a aprender, com grande ajuda da linguagem gestual, as regras básicas de uma modalidade que nunca tinha praticado, com uma bola cuja forma oval nunca tinha experimentado. Diga-se o que se disser sobre Fritsch, ninguém pode dizer que não aprendia depressa: só isso pode explicar que, durante essa primeira temporada, tenha sido figura determinante na caminhada dos Cowboys rumo ao Superbowl, concluída com uma vitória clara sobre os Miami Dolphins, por 24-3.

Fritsch ao serviço dos Dallas Cowboys, em 1975

Tal como na noite mágica de Wembley, depois do sucesso absoluto na estreia, Toni Fritsch não voltou a conquistar o anel de campeão, ao longo de 11 anos de uma digníssima carreira profissional na NFL. Mas, com 758 pontos em 125 jogos, e um registo de 13 jogos consecutivos a marcar nos play-off, o austríaco, que até morrer de ataque cardíaco, em 2005, nunca perdeu por completo o sotaque, tornou-se uma das referências na história da modalidade, assinando uma das mais notáveis reconversões de carreira de que há memória no futebol. No nosso e no deles.

Soldados  desconhecidos é uma rubrica dedicada a figuras pouco conhecidas da história do futebol, com percursos de vida invulgares.