DESTINOS é uma rubrica do Maisfutebol: recupera personagens e memórias dessa década marcante do futebol. Viagens carregadas de nostalgia e saudosismo, sempre com bom humor e imagens inesquecíveis. DESTINOS.

AÍLTON: Benfica (1993/1994 e 1995)

O Benfica 93/94 é a última boa colheita da Luz nos anos 90. Um plantel premium, reserva, vintage, o que quiserem. Agrada ao mais exigente dos benfiquistas, é consensual e conquistador. Essa época até acaba com uma derrota no Bessa, mas o jogo é só para cumprir calendário e celebrar a não conquista do tri por parte do FC Porto.

Nomes maiores? Mozer, Rui Costa, Vítor Paneira. E mais, e mais? Os três melhores marcadores da equipa no campeonato nacional. João Vieira Pinto (15 golos), Isaías (12) e Aílton (11). Aílton? O que é feito de Aílton Delfino? 

Emails, telefonemas, informações mais ou menos certas e, de repente, temos cinco números de telefone na nossa mesa. Os três primeiros dão em nada, o quarto pertence à esposa e o quinto é do próprio Aílton. 

51 anos, a alegria na voz, e temos Aílton do outro lado da linha. Vive na localidade de Três Marias, ali a meio caminho entre Brasília e Belo Horizonte, adora pescar e tratar dos seus animais., longe da confusão das cidades.

O avançado entrou na Luz a marcar ao Barcelona, foi importante nas escolhas de Toni, mas rumou logo ao Brasil para tentar salvar o seu casamento. Não correu bem, como confessa neste DESTINO: 90s no Maisfutebol

AÍLTON NO CAMPEONATO NACIONAL:

. 1993/1994: Benfica, 28 jogos/11 golos (campeão)
. 1995/1996: Benfica, 4 jogos/sem golos (2º lugar)

TROFÉU: um Campeonato Nacional (93/94)

Cima: Rui Costa, Abel Xavier, William, Hélder, Neno e Isaías;
Baixo: Aílton, João Pinto, Veloso, Paneira e Kenedy

 

Maisfutebol – Aílton, bom dia. É uma boa altura para falarmos?

Aílton – Opa, é de Portugal? Claro, para falar do meu Benfica tenho sempre tempo. Estou a voltar agora para casa, depois de um dia de pescaria perto da minha quinta.

MF – Tem uma quinta aí no Brasil?

A – Criei um património bom na altura em que joguei no Benfica e, felizmente, sempre tive boa cabeça para administrar os meus bens. Vivo na localidade de Três Marias, no Estado de Minas Gerais, e a minha quinta é muito bonita. Fica mesmo na margem do rio São Francisco e por isso aproveito para pescar quase todos os dias. Crio gado, galinhas e alugo quartos aqui no meu rancho a turistas.

MF – Está completamente afastado do futebol?

A – Não, isso nunca. Sou olheiro, como dizemos aqui, e coloco meninos da zona nos maiores clubes de Minas: o Atlético Mineiro, o Cruzeiro e o América. Também já treinei vários pequenos clubes daqui, o último foi o Vila Nova. Além disso, aos fins-de-semana jogo numa equipa de veteranos chamada Tradição. Tenho 51 anos, mas não estou em má forma.

MF – Recomenda algum menino especial aos clubes portugueses?

A – Ah ah ah, curiosamente passei há pouco tempo dois nomes ao meu amigo Neno. Fomos colegas no Benfica, lembra-se dele?

MF – Claro, trabalha no Vitória de Guimarães.

A – Isso mesmo. Se eu puder abrir as portas a alguns jovens aqui da minha terra, só posso ficar feliz. Tenho uma vida confortável, rodeado de natureza, mas jamais esquecerei o futebol. É uma das minhas grandes paixões, faz parte de mim. Está no meu sangue.

MF – É verdade que também esteve ligado à política?

A – Sim, candidatei-me a vereador de Três Marias, mas desisti quando faltava um mês para as eleições. A política aqui no Brasil envergonha-me. Resolvi largar quando percebi como as coisas se faziam e isso, para uma pessoa honesta, não dá. Preferi desistir, a política não foi feita para mim. Os bastidores da política são muito piores do que os do futebol.

A passagem de Aílton pela política não durou muito

MF – Sente-se realizado com o que alcançou no futebol?

A – Claro, sempre fui muito divertido, uma pessoa bem disposta e isso ajudou-me a criar ligações fortes por onde passei. Construí uma história importante no Atlético Mineiro, tive uma boa passagem pelo Benfica e não me posso queixar de nada. Ah, o meu Benfica… o Rui Costa, o Schwarz, os três russos, o Kenedy, o João Pinto. Aprendi muita coisa em Portugal.

MF – Foi campeão logo no primeiro ano na Luz.

A – É verdade, numa equipa treinada pelo senhor Toni, uma personagem fantástica. Ficámos com uma boa vantagem sobre o FC Porto e isso valorizou todos. Nunca esquecerei a minha estreia com a camisola do Benfica. Foi num amigável contra o Barcelona, na pré-época, e fiz um golo. Mandei fazer uma cassete com esse jogo, porque marcar ao Barcelona não é para todos. Aliás, agora quando vejo o Guardiola na televisão digo sempre: ‘fiz um golo a esse aí no Benfica’.

VÍDEO: o golo de Aílton ao Barcelona (2m40s, imagens RTP)

MF – Vamos, então, até 1993 e à vinda do Aílton para o Benfica. Lembra-se de como decorreu o processo da contratação?

A – Sim, eu tinha 24 anos e já uma carreira consolidada no Atlético Mineiro. Foi tudo muito rápido. O presidente do Atlético disse que havia uma proposta para mim de Portugal e depois negociei tudo com um senhor que era mandatado pelo Benfica. Não me lembro do nome dele, mas as condições apresentadas eram excelentes. Cumpri um sonho, fui para Lisboa e nos primeiros tempos fui muito ajudado pelo Stefan Schwarz. Uma pessoa reservada, mas com muito bom coração.

MF – Foi o colega que mais o ajudou?

A – Ele e o Toni, o meu técnico. Só lhes posso agradecer. A eles e a toda a gente do clube. Tudo o que tenho hoje, o meu património, deve-se ao dinheiro que ganhei em Portugal. Fui muito bem acolhido. As brincadeiras e o desafio desportivo fizeram com que eu me esquecesse das saudades do Brasil. E jogar na Luz… um estádio gigantesco. Era uma experiência muito forte. O Toni era uma pessoa curiosa. Elogiava muito, mas se corria mal… ele cobrava. Dava muita confiança e liberdade aos atletas e acho que essa liberdade foi fundamental para chegar ao título nacional.

MF – Esse golo ao Barcelona foi o mais importante com a camisola do Benfica?

A – Esse e o que marquei ao FC Porto numa vitória por 2-0 aqui na Luz. A rivalidade era enorme, doentia até. Para vocês verem como eram as coisas, eu marquei ao Porto e até me senti mal no relvado com a emoção.

VÍDEO: o golo de Aílton ao FC Porto (30s, imagens RTP)

MF – Que tipo de avançado era o Aílton?

A – Era um avançado que adorava ter a bola nos pés, habilidoso. Hoje é tudo demasiado rápido, correrias e mais correrias. Eu até era rápido, mas preferia receber e tocar para os meus colegas, porque jogava com dois génios: o Rui Costa e o João Pinto.

MF – Quem eram os seus melhores amigos no balneário do Benfica?

A – Dava-me bem com todos, mas o Neno era o mais divertido. O Kenedy, o Abel Xavier chamava-me Mineirinho, o Schwarz era caladão e um grande amigo. Tínhamos um bom grupo nesse ano, um grupo espetacular. Os únicos que se portavam menos bem eram os russos, ah ah ah. De vez em quando eles davam uma saidinha à noite e nós ficávamos a saber. Isso não caía bem no grupo. Comigo, tudo certo, nunca tive nenhum problema com o Yuran, o Kulkov e o Mostovoi.

MF – O Yuran era um dos seus concorrentes à titularidade no ataque.

A – É verdade, bom jogador, muito forte. Ele detestava era levar pancada no treino, ah ah ah. Resmungava, insultava, mas eu nunca percebia o que ele dizia, por isso tudo bem, tranquilo.

Aílton treinou o Vila Nova até há poucos meses

MF – Há pouco elogiou muito o Rui Costa e o João Pinto. Eram os melhores jogadores da equipa?

A – Acho que sim, mas não me posso esquecer do levezinho, o Vítor Paneira, e até do meu amigo Isaías, que tinha um pontapé de fora da área espetacular. Mas o Rui Costa e o João Pinto eram diferentes, metiam a bola nos avançados sempre redondinhas.

MF – Como era a atmosfera do campeonato português fora da Luz nesse anos de 1993 e 1994?

A – O pior era mesmo quando tínhamos de jogar nas Antas, a casa do Porto. Aí sim, o bicho pegava. Eles faziam um tipo de jogo muito duro e intimidavam, principalmente o Fernando Couto. Esse cara batia sem necessidade, achava-o muito desleal, por isso não gostava nada dele no campo. Também não gostava nada de jogar na casa do Marítimo, mas aí era por outros motivos.

MF – O que se passava nos jogos em casa do Marítimo?

A – Nos jogos, nada de especial. Mas eu tinha pânico, pânico, nas viagens de avião para lá. Aterrar naquele aeroporto era horrível. Eu às vezes até preferia não ser convocado para esses jogos, ah ah ah ah.

Aílton em ação no Estádio da Luz

MF – Depois de 14 golos e mais de 30 jogos, por que voltou logo ao Brasil? Foi dispensado pelo Artur Jorge?

A – Não foi bem assim. Eu tinha contrato, mas apareceu o interesse do Atlético Madrid e do São Paulo. O técnico do São Paulo era o Telé Santana, talvez o técnico mais importante da minha carreira. Sentei-me com a direção do Benfica, disse-lhes que queria voltar ao Brasil por questões familiares e o presidente Manuel Damásio acabou por aceitar um empréstimo de seis meses. Ainda voltei no ano seguinte ao Benfica e nessa altura o São Paulo fez mesmo uma boa proposta pelo passe. Saí tranquilo e de cabeça erguida, nunca tive nenhuma conversa com o treinador Artur Jorge.

MF – E as tais questões familiares eram verdadeiras?

A – Sim, infelizmente eram. Tanto eram que eu acabei por me divorciar nessa altura. A minha esposa da época nunca quis viver em Portugal e isso afastou-nos bastante a todos os níveis. Jogar no Benfica custou-me um divórcio doloroso. Ainda tentei salvar o casamento, voltando ao Brasil, mas não foi possível. Felizmente voltei a casar mais tarde e tenho quatro filhos lindos.

MF – Certamente tem muitas histórias engraçadas sobre a sua vida no Benfica e em Portugal.

A – As melhores aconteciam sempre no balneário. O Mozer era grande, todo musculado e adorava imitar os gritos do Tarzan. Aaaaaaaahhhhhhh! Depois batia no peito e pegava o Neno pela mão. O Neno fazia de Chita, ah ah ah ah, era uma brincadeira pegada. Trabalhávamos todos os dias com alegria, o Neno era mesmo muito engraçado. Com o Schwarz pegávamos muito. Ele era muito silencioso e nós íamos lá, fazíamos festinhas na cabeça dele, ele detestava. São as coisas boas do futebol.

MF - …

A – Olhem, antes de dizer adeus só queria mesmo agradecer publicamente a todos os meus antigos do Benfica, porque tenho muitas saudades deles todos. Digam por favor que têm aqui uma quinta à disposição deles no Brasil. Três Marias, Minas Gerais. Não há como enganar, é só vir cá e perguntar pelo Aílton que jogou no Benfica.

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